O Rei está calado, no grande portão de entrada de seu castelo, sentado em um trono alçado por seis dos mais fortes escravos, ao longe do corredor de cornetas, a mais nova rainha, a ex-virgem, a mais nova companheira do Rei, chega com um grande sorriso, para morar de vez no castelo prometido a algumas noites, regada a muito vinho e promessas.
-Por que me olhas com tal olhar meu Rei? Está profundidade fria, distante e triste, faz-me pensar que tu, ó Rei, se arrependes do que prometestes a mim. Pergunta a moça, ao finalmente atravessar o corredor de trombetas.
- Não estou sendo frio minha cara Rainha. Mas nada disto é mais novidade para mim. –Responde o rei acenando para a multidão.
A jovem rainha, não questiona mais o Rei, ao perceber que o Rei tentava passar apenas firmeza e perfeição aos súditos ali presentes. Ela também começa a acenar com um lindo sorriso digno mesmo de uma Rainha, enquanto todas as festividades da coroação seguem perfeitamente como o planejado.
Já é noite, e como esperado, a beleza da rainha é comentário a léguas dali e daqui, os pombos já levaram até pra além da fronteira, a notícia da nova rainha. Os inimigos temem, pois sabem a diferença de se ter uma grande mulher por trás de um grande homem, mas também cogitam a idéia de ser só mais uma amante que se deu bem. E enquanto um reino inteiro quebra-se em perguntas sobre o assunto, o Rei esta deitado em sua cama.
A porta do quarto se abre, e dela aparece a rainha, em trajes núpciais que deixariam até o homem mais velho e cansado do mundo, um verdadeiro touro. Porém na cabeça do Rei, os problemas eram outros, e não havia nada ali que ele já não tinha visto antes, nem nela, nem no quarto, nem nos trajes, nem em outra centena de mulheres.
Quando as portas se fecham, a rainha cai aos prantos:
-Ó meu rei, não entendo! Naquela noite, você era outro! Porque faz isso comigo?
-Sente-se aqui ao meu lado minha cara Rainha, preciso lhe falar olhando nos olhos – ela senta, enquanto algumas lágrimas escorrem, o olhar distante do Rei, é imediatamente direcionado a ela, é como um soco – Quero mesmo que você seja minha última Rainha, mas são poucas as mulheres que agüentam uma vida inteira cercadas por venenos e inimigos, hipocrisias e falsidades. Eu nasci e cresci dentro deste castelo, não preciso de mais que isso para viver bem e feliz, apesar de não saber realmente o que é felicidade. Meus soldados estão perdendo suas vidas nas fronteiras do norte neste momento, por terras, ceifando vidas em meu nome, tudo porque um Rei só é forte se ganha terras das quais não precisa, nem pra plantar um grão. Lá fora meu sorriso é brilhante, e minha espada, a mais afiada, meus gritos são de força, minha raiva é assustadora e meu medo inexistente. Mas dentro destas quatro paredes, quem não existe é meu sorriso, minha espada nunca teve corte, pois nunca fui a uma batalha, meus gritos são de dor e desespero, minha raiva me deprime, e meu medo… é simplesmente o que existe.
Eu nasci Real e vou morrer Real,mas isto nunca quis dizer que eu não fosse normal. O imaginário popular, me tem como um Deus, e se esta idéia for abalada, o reino inteiro cairá. Eu carrego o fardo de um nome, de um reino, de um Deus, a cartografia, o modo de vida e a própria vida, podem ser mudados com uma só palavra minha, mas isto nunca foi o que eu quis dizer.
A rainha seca as lágrimas, ainda olhando fixamente para o Rei, e toda aquela perfeição de seu novo marido, é vista em um grande incêndio dentro dos olhos do agora sofrido Rei. Ela esboça algumas palavras, mas não diz nada, ela abraça o Rei como se acolhesse uma criança chorona nos braços, um abraço apertado e duradouro. Ao mesmo tempo que o rei desaba em emoções, ele se acalma, e respira um ar puro que não respirava a tempos.
Ainda abraçados, a rainha começa a dizer:
Eu nasci entre galinhas e porcos, e sempre vivi entre eles, no inverno, se deixarmos eles para fora da casa, todos morrem congelados, aos nove anos comecei a ser assediada por meu pai, tios e irmãos, vi minha mãe apanhar até a morte quando tentou me defender, e tenho uma cicatriz na perna que ganhei na fulga após a morte da minha mãe, feita por meu pai. Tinha 14 anos na época, e desde então, ganhava moedas em bares, em troca de favores sexuais, e foi assim que te conheci meu Rei, a algumas noites atrás.
Fugi de casa, em busca de alguma coisa que não conhecia, passei fome, vinha sempre nas lixeiras do castelo procurar o que comer, passei frio, praticamente morava em bares no inverno, aprendi do pior jeito como o mundo é nojento, vil, inescrupuloso, ainda mais pra uma menina pobre e de cabelos lisos. Ser rainha é um sonho que nunca me passou pela cabeça, mas sempre imaginei como seria bom trabalhar no castelo e ter moradia, e também comida todos os dias. Minha pobreza e minhas vivencias me fizeram decorar coisas que você, meu rei, nunca precisará passar, mas minha esperança me fez continuar viva, e estar na cama real hoje. Não seja tão egocêntrico como se só você tivesses problemas, fardos e dilemas, me de o momento mágico que minha esperança me prometeu até hoje, e terá em troca alguém pra dividir teu fardo, alguém que te vê como um ser que erra, que teme, que aprende ao invés de saber tudo, de carne e osso. Você já teve muitas mulheres meu Rei, Mas nunca foi casado.